Cartografia dos/as mestres/as de saberes em Manaus
Projeto Encontro de Saberes: pesquisa, inovação metodológica e práticas outras de conhecimento (PROGRAMA UNIVERSAL/FAPEAM 20 ANOS)
Como parte do projeto, que teve como objetivo investigar e cartografar práticas ancestrais e sujeitos reconhecidos por suas comunidades como mestras/es e acompanhar, de forma experimental e dialógica, o encontro de onto-epistemologias no interior da Universidade Federal do Amazonas, foram mobilizados dez estudantes de graduação de diferentes cursos, contemplados com bolsas de Iniciação Científica. Atentos às trajetórias de vida, aos territórios de atuação e às formas de produção e transmissão dos conhecimentos, os estudantes desenvolveram pesquisas com mestres e mestras vinculados a diferentes grupos sociais de Manaus e de sua região metropolitana. Por meio de levantamentos bibliográficos, observação participante, entrevistas e acompanhamento de atividades cotidianas, buscaram compreender quem são essas pessoas, quais conhecimentos cultivam, como se constituíram suas trajetórias e de que maneira seus saberes são aprendidos, praticados e compartilhados. Uma das preocupações que atravessou as pesquisas foi justamente compreender o que faz de um mestre um mestre: quais experiências, relações, reconhecimentos, responsabilidades e formas de atuação sustentam essa condição em cada contexto.
As pesquisas acompanharam práticas relacionadas ao samba, ao boi-bumbá, à capoeira, às religiões de matriz africana, às artes indígenas, à agricultura agroecológica, às formas indígenas e populares de cuidado e cura e ao cultivo de roças, quintais e plantas medicinais. Embora distintas entre si, essas práticas evidenciam que a mestria não corresponde apenas ao domínio individual de um conjunto de técnicas. Ela pode se constituir pela experiência acumulada, pela iniciação, pela herança familiar, pelo chamado espiritual, pela eficácia reconhecida, pelo compromisso comunitário, pela capacidade de cuidar e pela disposição para formar outras pessoas. Evidenciam também que a produção e a transmissão do conhecimento não se restringem às instituições escolares, ocorrendo em terreiros, aldeias, quintais, feiras, rodas, quadras, barracões, centros de medicina indígena e espaços comunitários, por meio da oralidade, da observação, da convivência, do exercício corporal e do fazer compartilhado.
Este mapa digital apresenta parte dos resultados dessas pesquisas, construído em parceria com o Instituto de Ciências Periféricas, reunindo lugares de atuação dos mestres e mestras e breves textos sobre suas trajetórias. Sua produção também constitui uma experiência pedagógica. Ao acompanhar essas trajetórias e transformá-las em textos e referências espaciais, os estudantes aprenderam a reconhecer formas de produção e transmissão do conhecimento que nem sempre são legitimadas pelos modelos escolares e acadêmicos. A construção do mapa exigiu exercícios de escuta, descrição, seleção, interpretação e responsabilidade na representação das pessoas, de seus saberes e de seus territórios. Mapear, nesse sentido, não significa apenas localizar, mas aprender a perceber relações, deslocamentos, vínculos e redes de conhecimento.
Mais do que situar indivíduos em pontos fixos, o mapa procura tornar visível uma extensa geografia de saberes, formada por trajetórias que conectam bairros, comunidades, municípios e outros territórios. Os pontos assinalados devem ser compreendidos como lugares de referência de práticas e relações que frequentemente ultrapassam os limites de Manaus e de sua região metropolitana. Sem pretender representar toda a diversidade de mestres, mestras e práticas de conhecimento existentes na região, o mapeamento constitui um primeiro movimento de reconhecimento e valorização dessas trajetórias.
